Saiba Mais: O que é pré-publicação?

A pesquisa científica leva muito tempo: experimentos são realizados, ensaios clínicos são executados e os dados gerados precisam ser analisados ​​e compreendidos antes de serem publicados. Juntos, esse processo não acontece rapidamente. Embora as pessoas possam não perceber, uma etapa que leva muito tempo entre a geração de dados e a publicação de um artigo é o próprio processo de publicação.

A publicação de um artigo científico pode levar de alguns meses a anos. Se analisarmos as estatísticas de 2018 para a revista PLOS ONE, por exemplo, veremos que o tempo médio que levou um artigo para passar pelo processo de publicação foi de 6 meses. Isso significa que metade dos documentos levou menos de 6 meses para ser processada, enquanto a outra metade levou mais tempo. Além disso, muitas vezes são necessárias várias submissões para diferentes periódicos antes que um artigo seja aceito, e as equipes de pesquisadores podem enviar um artigo apenas para um periódico por vez. Considerando tudo isso, não é surpresa que o processo de publicação de um artigo científico possa levar uma quantidade substancial de tempo.

Illustration of a scientist working at a laptop computer, sharing ideas with colleagues
Um cientista trabalhando na redação de um artigo científico. Imagem cortesia de Piqsels.

No entanto, existem muitas coisas importantes que acontecem durante esse processo: os manuscritos são examinados por um editor, os especialistas apropriados na área são solicitados a executar a revisão por pares e as revisões são enviadas ao editor. Esse editor toma uma decisão sobre como avançar (geralmente pedindo aos autores que atualizem seus trabalhos para atender às solicitações dos revisores). Os artigos podem ser rejeitados em qualquer um desses estágios, e esse processo pode ocorrer duas ou três vezes em qualquer periódico antes que seja tomada uma decisão final de aceitação ou rejeição.

Devido ao tempo que leva esse processo, há um atraso na obtenção dos resultados de um estudo para outros cientistas – informações que podem influenciar drasticamente os experimentos que estão sendo realizados em laboratórios de pesquisa no momento. Felizmente, é aqui que entram as pré-publicações.

Preprints (pré-publicações) são rascunhos finais de artigos que as equipes de pesquisa compartilham em servidores públicos antes / quando iniciam o processo de publicação. Isso significa que outros pesquisadores podem ver os rascunhos dos manuscritos muito antes da publicação do artigo “oficial”. Um dos sites mais populares para pré-publicações inéditas nas ciências da vida é o bioRxiv, que em março de 2020, já tinha mais de 77.000 documentos de pré-publicações enviados para seus servidores.

Quais são os benefícios dos artigos pré-publicados?

Um dos principais benefícios das pré-publicações é a rápida disseminação de informações. Em vez do atraso de meses ou anos para compartilhar artigos, a comunidade científica pode ler as publicações para aprender sobre algumas das mais recentes descobertas no campo.

Os autores também se beneficiam do upload de uma pré-publicações, pois ela atua como um carimbo de data e hora para quando eles revelaram seus resultados. Estabelecer uma prioridade dos resultados da pesquisa pode ser importante para os autores devido à natureza competitiva da ciência. Da mesma forma, devido à natureza colaborativa da ciência, vários grupos de pesquisa diferentes podem optar por fazer o upload de pré-publicações com resultados semelhantes ao mesmo tempo para garantir que a prioridade não seja atribuída a um estudo enquanto os outros estudos são realizados no processo de publicação. Também é muito mais fácil para os pesquisadores compartilhar informações sobre “dados negativos” por meio de pré-publicações, bem como estudos de replicação. Dados negativos são os resultados que você obtém quando um experimento revela que sua previsão inicial – conhecida como sua “hipótese” – provavelmente está incorreta. Os estudos de replicação são repetições de experimentos que foram publicados anteriormente por outros grupos e servem para verificar novamente se o trabalho desses grupos foi realizado corretamente. Embora estudos de replicação e dados negativos sejam muito importantes para o processo científico, pode ser difícil publicá-los, pois alguns periódicos não veem esses estudos como novos ou interessantes. As pré-publicações são uma alternativa para compartilhar essas informações.

Ainda precisamos de publicações tradicionais?

Apesar do longo tempo necessário, a publicação tradicional sempre terá uma vantagem sobre as pré-publicações: a revisão por pares. A revisão por pares pode detectar pequenos erros e melhorar a qualidade geral dos trabalhos de várias maneiras, inclusive sugerindo experimentos adicionais e / ou alterações no estilo de escrita. Em casos raros em que fraude ou plágio ocorre, a revisão por pares também pode impedir a publicação de tais estudos.

Essa diferença entre pré-publicações e artigos publicados foi recentemente destacada pelo bioRxiv. Durante a pandemia do COVID-19, o bioRxiv publicou a seguinte declaração:

“O bioRxiv está recebendo muitos novos artigos sobre o coronavírus 2019-nCoV. Um lembrete: esses são relatórios preliminares que não foram revisados ​​por pares. Eles não devem ser considerados conclusivos, orientar a prática clínica / comportamento relacionado à saúde ou ser reportados na mídia como informação estabelecida.”

Esta declaração é uma resposta a alguns meios de comunicação que não compreendem completamente a diferença entre pré-publicações e artigos publicados. Como o bioRxiv diz, eles são diferentes e não devem ser tratados da mesma forma.

Isso não significa, porém, que não possamos confiar nas informações que encontramos nos documentos de pré-publicações – apenas significa que precisamos analisar criticamente as informações. Ao ler as pré-publicações, é importante entender que elas são uma prévia de um trabalho em andamento, não o produto final.

Se você quiser saber mais sobre as pré-publicações, dê uma olhada neste artigo da Science Magazine, neste vídeo da iBiology ou nesta definição da bioRxiv.

Saiba Mais escrito por Celeste Suart, editado pela Dra. Hannah Shorrock e traduzido para Português por Guilherme Santos, publicado inicialmente em: 17 de abril de 2020.